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Demorei 10 anos para escrever meu primeiro livro e isso me tornou uma redatora melhor

Como eu costumo dizer, logo que eu aprendi a escrever, eu passei a amar essa atividade intensamente. Comecei com poesias, mas fui crescendo e experimentando outros tipos de texto. Logo nasceu em mim a vontade de ser uma autora publicada um dia. Quando eu era adolescente, tive a minha primeira ideia para um romance, porém ainda me faltava muito conhecimento técnico e disciplina. Além disso, confesso que a história era um tanto confusa e dramática demais de um jeito bem infantil (o que faz todo sentido, afinal, eu era muito nova). Ainda assim, eu me lembro que alguns elementos eram interessantes, cheguei a fazer um monólogo da personagem principal que eu apresentei na oficina de teatro que eu fazia na escola e algumas pessoas se emocionaram. Então, acredito que posso utilizar algo dessa história em algum outro projeto eventualmente, embora eu não saiba se ainda faria algo com vampiros porque não tenho mais esse gosto por histórias de fantasia e coisas sobrenaturais.

Uma curiosidade engraçada: eu comecei essa história em 2003 e fiquei remoendo-a até 2007, quando fiz a oficina de teatro. A história era sobre vampiros e uma das personagens se chamava Isabel, dois anos antes de um certo livro de vampiros sobre uma garota chamada Isabella ter sido lançado. Só que a minha história era um pouco mais perturbadora e obscura. Ainda antes de desistir desse livro, em 2006, eu criei uma outra história sobre uma garota chamada Sophie que se passava na França e envolvia a cultura celta, que sempre me fascinou. Eu perdi os arquivos desse livro, mas ainda tenho guardada uma cópia física do que escrevi naquele tempo. Esse projeto também tinha muitos problemas, não tinha uma estrutura bem definida, a minha escrita era muito prolixa e excessivamente descritiva, os personagens não estavam bem definidos.

No entanto, eu me lembro que foi aí que se consolidou em mim o amor pela pesquisa para a escrita. Eu pedi de aniversário um guia de viagem sobre a França, passava muito tempo no Google Maps usando a vista da rua para fazer os caminhos que a minha personagem percorria e pesquisei bastante sobre os celtas. Também pretendo revisitar essa história algum dia e ver se consigo dar uma repaginada para fazer algo novo. Mas, mais uma vez, fui largando a história aos poucos e ela ficou na gaveta definitivamente lá para 2009. Então fiquei muitos anos sem pensar em outro romance. Fiquei escrevendo apenas poesias, contos e ensaios reflexivos.

Até que, em 2015, a vontade de escrever um livro voltou com tudo. A ideia lá no começo era participar do NaNoWriMo (para quem não conhece, é um desafio de escrita que acontece todos os anos em que os participantes têm que escrever 50 mil palavras em um mês). Meu namorado na época também era escritor e tivemos a ideia de participarmos juntos, cada um com o seu livro. Agora, um breve parênteses: ele era um pouco tóxico, eu me lembro que ele uma vez me disse que não conseguia ficar feliz quando algo bom acontecia com alguém que ele conhecia.

E, de fato, sempre que eu falava de alguma coisa positiva que tinha acontecido comigo, ele respondia diminuindo a situação. Um exemplo foi uma vez em que eu contei para ele sobre uma interação inusitada que tive com uma moça da padaria. Eu tenho o hábito (que eu admito que pode ser irritante) de cantar em voz alta. Nunca fiz aula de canto e sei que estou longe de ser uma ótima cantora. Mas às vezes sai uma cantoria até que decente. Pois então, um dia eu estava fazendo compras nessa padaria e a vendedora veio falar comigo para me elogiar dizendo que eu canto muito bem (alguns dias depois fui lá de novo e ela disse que tinha até sonhado comigo, achei fofo e engraçado). Quando contei isso para ele, a primeira coisa que ele disse foi “isso nunca aconteceu comigo” e depois falou “é que voz de mulher é mais fácil de agradar”. Esse tipo de cutucada acontecia com frequência.

Eu sei que dei uma desviada no assunto, contudo, eu precisava contextualizar a reação dele quando contei a trama que eu havia escolhido para o meu livro; ele disse que achou muito clichê e que ia ser bem difícil fazer algo bom com aquilo. Naquele período eu ainda estava um pouco presa a ele de uma forma não muito saudável. Mas, mesmo assim, consegui ignorar esse comentário dele e segui em frente com a minha ideia.

Dessa vez, eu queria fazer algo mais próximo da minha realidade, começando pelo cenário, o Brasil mesmo. Minha ideia era escrever sobre uma moça que tenta se matar e não consegue. Ela acaba encontrando a Morte personificada, que faz um acordo com ela: permanecer viva por mais um ano, tendo conversas mensais com a Morte, se depois desse tempo ela ainda quiser morrer, a Morte a levará sem dor. Eu só tinha isso naquele momento e comecei escrevendo a carta de despedida da protagonista, a Cora. Coloquei nela e nos poucos parágrafos seguintes muitos sentimentos e experiências pessoais, entretanto, parei aí. Vez ou outra eu revisitava a história e revisava o que eu tinha escrito, colocando um ou outro detalhe do meu momento atual. Como em 2019, por exemplo, quando escrevi uma cena inteira de um dos encontros da Cora com a Morte enquanto esperava para ser atendida no consultório do psiquiatra. Escrevi o livro em inglês porque na época fluiu melhor dessa forma. Acredito que talvez isso tenha acontecido porque eu estava realmente falando de um lugar muito delicado da minha vida e escrever em outro idioma causava um certo distanciamento.

Em 2023, eu retomei as pesquisas para o livro e voltei a escrever alguma coisa ocasionalmente. Até que, em 2024, eu li o livro Sobre Escrita, do Stephen King, e um trecho me marcou, ele diz que a musa existe, porém ela é um cara preguiçoso que mora no porão e se você não for lá trabalhar ele nunca vai te ajudar. Também li uma frase, não me lembro onde, que supostamente foi dita por Picasso “a inspiração existe, mas ela precisa te encontrar trabalhando”. Isso me incentivou a fazer de tudo para terminar aquele livro, que estava tão enraizado em mim e lutava tão intensamente para existir. Comecei fazendo alguns cursos sobre escrita e um deles, que encontrei na plataforma Domestika, de uma autora chamada Shaunta Grimes, girou uma chavinha na minha cabeça.

Nunca cheguei a ler nada que ela tenha escrito, mas adorei o curso. Ele me ajudou a estruturar melhor a minha história e a ter mais disciplina para escrever. A Shaunta Grimes propõe um desafio em que você determina uma meta de escrita diária e se obriga a escrever todos os dias até alcançar aquele objetivo. Tive muito orgulho de mim quando consegui completar sem falhar nem um dia sequer. E acabei finalmente concluindo o primeiro rascunho do meu livro em julho de 2025. Lá para o final do mesmo ano eu consegui revisar e concluí o segundo rascunho. Eu precisava que alguém que fizesse uma leitura crítica e me desse um feedback, cheguei a fazer um orçamento com uma amiga que trabalha com isso, só que infelizmente ainda não tive dinheiro para isso. Por fim, cansei de esperar e agora estou mandando para agentes literários. Recebi muitas respostas negativas até agora, mas fico me lembrando de outro trecho do livro do Stephen King em que ele fala sobre todas as rejeições que ele recebeu no começo e que ele deixava penduradas em um prego no quarto dele.

A parte óbvia de como tudo que contei até hoje me ajudou a evoluir como escritora em geral, portanto, também como redatora, é o fato de que é necessário praticar a escrita frequentemente e que os anos de experiência vão nos moldando e melhorando nossa habilidade. Mas também levei outros aprendizados dessa odisseia para o meu ofício atual. Primeiro a importância da pesquisa, claro. Escrever sem pesquisar sobre o assunto em questão enfraquece o resultado. Além disso, a pesquisa ajuda a alimentar a motivação para escrever e a instigar sua inspiração, é um ótimo passo para quem está bloqueado e não sabe por onde começar.

No entanto, é importante entender que a pesquisa não acontece apenas antes de iniciar a parte da escrita em si, você não precisa ter terminado de pesquisar tudo para começar a escrever. Pensar assim é uma ótima forma de ficar travado de vez. Também aprendi a desenvolver personagens mais complexos, o que ajuda a criar personas, por exemplo. A escrever com vozes diferentes, sem perder seu estilo próprio. Aprendi que dificilmente vai chegar um momento em que o texto naturalmente chega ao fim. É bem comum ficar querendo continuar eternamente no processo de revisão. Uma hora temos que aceitar que fizemos o que dava para fazer. Contudo, meu principal aprendizado foi calar a voz do meu crítico interno. Essa vozinha chata atrapalha todo o processo. Antes mesmo de começar, você fica ouvindo-a dizendo que você não consegue, que tudo que você faz é péssimo. E mesmo quando você começa a escrever as primeiras frases, ela lhe ataca falando que está muito ruim. Quando você finalmente amordaça esse crítico e ele é silenciado, a escrita passa a fluir melhor.

Tive que aprender muita coisa nova quando entrei na publicidade, mas também percebi que muito do que eu já sabia sobre escrever seria útil nesse trabalho.