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O que você só descobre sobre a sua escrita quando compartilha seus textos

Eu já fui uma escritora que escondia minha escrita, mesmo sendo uma das partes mais importantes da minha vida. E eu sei que essa experiência é bem mais comum do que parece. Existem muitos escritores “invisíveis” por aí que muitas vezes nem se consideram escritores de fato, por não conseguirem compartilhar seus trabalhos. Eu comecei a escrever muito cedo, logo que eu fui completamente alfabetizada.

No começo, eu não tinha a menor vergonha de mostrar o que eu escrevia. Esse comportamento se estendeu até a minha adolescência. Eu mostrava para minha mãe (o que não conta muito como exemplo de coragem) e ela costumava imprimir e levar para o trabalho dela para colocar no quadro que eles tinham na sala. Ela fazia isso principalmente com os poemas que eu escrevia na época. Eu também mostrava para amigos, embora nesse período eu não tivesse outros amigos que também gostassem de escrever. E mostrava para professores.

Até o dia em que eu mostrei um texto meu para um professor da faculdade de jornalismo e ele fez críticas duras sobre meu estilo e técnica. Daí em diante, eu passei a escrever bem menos e a ter muito medo de mostrar meus textos para qualquer pessoa. Não só por conta dessa situação, eu também estava com um bloqueio devido a outros problemas pessoais, mas esse foi um fator que influenciou bastante nessa mudança de comportamento.

Hoje eu olho para trás e vejo que eu não precisava ter deixado isso me afetar tanto. Se eu pudesse voltar no tempo eu teria uma conversa séria sobre isso comigo mesma. Uma pessoa que quer escrever profissionalmente não pode deixar as críticas terem esse efeito tão grande. E nesse caso especificamente, as críticas que esse professor fez foram muito válidas. Ele era um cara experiente e que também escrevia para além do jornalismo, seus apontamentos foram certeiros. Tanto que as coisas que ele disse ficaram na minha cabeça por muito tempo e acabaram me incentivando a melhorar minha habilidade.

Essa situação aconteceu em 2014, por aí, e literalmente 10 anos depois eu retomei o contato com ele por e-mail. Trocamos algumas mensagens longas e ele falou que, embora se lembrasse do episódio em que eu mostrei meu conto para ele, não se lembrava do conteúdo da crítica, mas que pelas minhas mensagens viu que eu escrevo “com clareza, elegância e sensibilidade, e com uma honestidade convincente”. Imagina se eu tivesse deixado essa crítica me impedir de escrever novamente pelo resto da minha vida?

Mostrar seus textos para os outros faz mais do que ensinar a deixar o ego de lado, também ajuda a vencer a insegurança. Eu percebo que sempre que eu mostro algum texto meu para alguém ouço comentários que me ajudam a enxergar coisas que eu não tinha visto antes e que o olhar de outra pessoa conseguiu apontar.

Mas além disso, quando eu preciso defender alguma escolha ou simplesmente me vejo compartilhando mais sobre o texto durante a conversa, eu vejo de forma mais clara que tenho técnica sim e que existe uma lógica que eu montei com cuidado por trás da estrutura daquele conteúdo. Também acabo trazendo para a consciência coisas sobre a narrativa que eu tinha definido, mas que estavam no subconsciente.

Um dos momentos em que isso aconteceu comigo foi com relação ao livro que estou escrevendo no momento. Um dos principais personagens é um cordelista chamado Francisco que não tem um alto poder aquisitivo e não fez um curso de graduação, mas é autodidata e leitor assíduo, o que o transformou em uma pessoa erudita e em um excelente escritor. Em um momento, eu coloquei a palavra “arcabouço” na fala dele e o comentário que recebi foi questionando se faria sentido ele falar assim por conta do contexto do personagem. Minha resposta foi que independente do fato dele ser uma pessoa pobre e não ter tido uma formação acadêmica, ele sempre teve um estilo de vida que o transformou em um homem culto com um vocabulário sofisticado.

Outra situação parecida foi quando debati com algumas pessoas sobre qual voz narrativa eu deveria escolher para o livro. Falei sobre as possibilidades que eu havia pensado e o que cada uma trazia para a história. À medida que fui falando, percebi que a melhor escolha seria a narração em primeira pessoa alternando entre os dois personagens principais. Isso porque a história é sobre duas pessoas que se encontram e criam uma relação forte e paternal. São dois mundos completos e complexos se encontrando. A narração da protagonista eu fiz em primeira pessoa, mas no passado. Contudo, quando fui escrever a narração do Francisco a primeira frase que me veio foi “quem essa garota pensa que é”, assim mesmo, no presente. Não entendi o porquê na hora, mas quando fui explicar para outra pessoa eu entendi que o jeito rabugento e explosivo do personagem pedia esse tipo de narração.

Todo mundo fala sobre como é importante ler muito e escrever regularmente para melhorar como escritor. E tudo isso é de fato importante, claro. No entanto, uma parte essencial da evolução na escrita é justamente o momento em que você para de escrever apenas entre quatro paredes e começa a compartilhar seus textos com o mundo. Ganhar dinheiro escrevendo não é o que transforma oficialmente alguém em escritor. Um dos principais divisores de água nesse sentido é justamente esse movimento de compartilhar a sua escrita.