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Empatia também é uma ferramenta de escrita

Não julgue seus personagens, inclusive (e talvez principalmente) os antagonistas. Para que um personagem seja crível e, dessa forma, colabore para o leitor entrar na história, ele deve ser tão complexo quanto todo ser humano é. Ninguém é 100% bom ou 100% mau na vida real e quando você cria um personagem assim, ele fica plano, sem complexidade alguma. E é a complexidade que faz a trama se desenvolver.

Todo mundo tem motivos para ser como é, ter sentimentos específicos e tomar qualquer atitude. São esses motivos que movem as pessoas e movem as relações. Ter esse conhecimento não é a mesma coisa que justificar ações negativas que prejudicam algo ou alguém.

Escrever sobre isso me lembra uma conversa que tive recentemente com uma pessoa próxima a mim. Ela estava dizendo que esse ano ela não iria culpar os outros por nada que acontecesse com ela, que iria assumir a culpa de tudo porque tudo que acontece com ela é porque ela se colocou em uma situação que levou àquilo. Minha resposta foi que nem sempre se trata de colocar a culpa em alguém, seja em você ou nos outros, mas de entender como as pessoas nos afetam.

Eu amo meus pais e sei que eles fizeram o melhor que puderam — eu falei para ela —, mas isso não me impede de entender que alguns comportamentos, atitudes e falas deles me causaram traumas que me afetaram por muito tempo (inclusive alguns me afetam ainda). E, no processo de entender isso, eu passei pela fase da raiva, que é totalmente normal. É um sentimento natural quando você percebe que não conseguimos controlar tudo que acontece com a gente. Percebe que algo que nos afeta profundamente de forma negativa, que nos faz sofrer, veio de uma ação de outra pessoa. Principalmente quando essa situação acontece quando você está mais vulnerável, como quando somos crianças e adolescentes.

Anos de terapia me fizeram compreender grande parte dos porquês por trás dessas ações de outras pessoas. Conversando com os meus pais e descobrindo algumas coisas que eles passaram, entendendo como foi a criação deles, como seus pais foram com eles, como era o mundo quando eles estavam se formando, permitiu que eu encontrasse um pouco de paz e fortaleceu minha capacidade de ter empatia por eles.

E eu sei que, agora adulta, só cabe a mim achar formas de “consertar” alguns desses erros deles. Ainda assim, essa compreensão não anulou meu sentimento de indignação por tudo que passei e pelos traumas que acumulei. E olha que eu tive muitos privilégios. Imagino que esse processo seja ainda mais intenso para algumas pessoas que passaram por situações mais complicadas.

Pode parecer que eu me perdi um pouco com essa tangente, mas o ponto de falar tudo isso é exemplificar o que significa não julgar os outros, assim como um escritor não deve julgar seus personagens. Quando temos esse julgamento, ou criamos personagens maniqueístas que só fazem o bem ou o mal como se o mundo fosse dividido dessa forma, ou criamos personagens que tomam atitudes que não parecem naturais. Nos dois casos a sua história fica prejudicada.

É normal que as pessoas se enxerguem como protagonistas da própria história e, em geral, elas dificilmente se enxergam como vilãs. Talvez seja por isso que pode ser difícil entender os erros dos outros. No entanto, a prova de que ninguém é unidimensional é que muito provavelmente você já foi o vilão em alguma história contada por alguém.

Fazer terapia é importante em geral, fortalecer sua capacidade de ter empatia não apenas melhora a forma como você trata os outros, mas também traz uma certa paz interior e lhe faz ser mais gentil consigo mesmo. Porém, para escritores, a terapia pode desempenhar um grande papel em melhorar sua capacidade de desenvolver personagens realistas e complexos.