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Escrevo porque sou curiosa e sou curiosa porque escrevo

Se você escreve, experimente sair na rua sozinho sem alguma música tocando no seu fone de ouvido para abafar os sons ao redor. Eu sei, muitas pessoas consideram essa uma missão quase impossível. Eu mesma nem sempre sou capaz. Mas, quando consigo, percebo o quanto minha percepção do mundo e das pessoas fica mais aguçada. Acabamos nos tornando dependentes de uma distração musical quando saímos de casa, mas perdemos muita coisa fazendo isso. Seja no metrô, nas mesas de um café, na livraria, em alguma fila, analisar o comportamento humano em interações sociais me ensina muito sobre as pessoas.

Quando saio sem o fone eu fico mais atenta a certos detalhes. Por exemplo, eu adoro ouvir as conversas dos outros quando estou na rua. Às vezes ouço histórias inteiras, outras vezes pego apenas alguns trechos isolados que atiçam a minha curiosidade e forçam minha mente a tentar imaginar o contexto. Gosto de analisar as escolhas de palavras de cada um, as nuances nas entonações, os gestos que acompanham a fala, as reações dos ouvintes e até as expressões faciais, quando seus rostos estão no meu campo de visão. E ouvir atentamente também inclui prestar atenção nos silêncios, nas hesitações, nos momentos em que as pessoas começam uma fala e se interrompem. Muita coisa é dita naquilo que não se fala.

No entanto, não é apenas meu ouvido que fica mais aguçado, meu olhar também absorve mais do mundo à minha volta quando estou na rua sem ouvir música. Observo mais atentamente até a forma como as pessoas se vestem. Em uma cidade como São Paulo, em que é mais fácil encontrar pessoas com um estilo fora do convencional, isso pode ser ainda mais interessante. Tentar adivinhar a personalidade de alguém pelas escolhas que ela fez ao se vestir exercita nossa criatividade. Outro dia desses cruzei com duas pessoas na rua vestidas com roupas que misturavam um estilo antigo com elementos mais modernos.

Um deles, que me marcou mais, usava uma vestimenta que parecia a de um bobo da corte da era do renascimento, com um short bufante e meias compridas. Já a outra estava com um vestido meio gótico com detalhes vermelhos. Fiquei me perguntando se eles estavam indo para algum evento, ou se é assim que eles se vestem normalmente. A segunda opção me pareceu mais plausível, porque não havia uma coerência entre os estilos deles.

Inventei para eles duas personagens corajosas e seguras de si com um forte interesse em épocas antigas. Imaginei o passado deles e escrevi uma adolescência difícil em que os colegas de escola não reagiam bem aos seus estilos únicos. Na história que criei para os dois, o que os aproximou foi justamente o fato de serem tão diferentes do resto dos alunos da escola em que estudavam. Assim, eles se uniram e se protegeram, criando um vínculo potente que fez com que eles conseguissem levar essa amizade para a vida adulta.

Como escritora, sei que construir um repertório amplo é essencial, e geralmente falamos sobre fazer isso através da leitura, porém, contemplar o mundo com atenção também ajuda a enriquecer esse repertório. Presenciar as pessoas vivendo seu dia a dia de forma natural, tentando inclusive diferenciar o que é performance, máscara, do que é genuíno, é um processo importante para entender minuciosamente a humanidade. Algumas pessoas podem chamar essa curiosidade de fofoca, mas tudo bem, afinal, todo escritor tem um quê de fofoqueiro dentro de si.