Porque sempre gostei de ouvir histórias de estranhos
Minha mãe tinha muito medo de que um dia eu fosse levada por uma pessoa qualquer na rua. Não era exagero dela, seria bem possível isso acontecer, porque eu dava papo para todo estranho que me desse a menor abertura (às vezes nem precisava me dar abertura). Eu me lembro de uma vez em que fomos a uma floricultura e fui explorar as plantas sozinha enquanto minha mãe escolhia o que ela queria. Do nada, eu parei uma mulher para falar que a flor que ela estava vendo tinha o meu nome. Não me lembro do que falamos exatamente, mas sei que rolou toda uma longa conversa depois disso. No final, ela me deu o número de telefone da casa dela (isso foi nos anos 90, quando as pessoas ainda tinham telefones fixos) e disse que eu podia ligar quando quisesse. Claro que quando contei isso para a minha mãe ela não deixou e jogou o papel com o número dela fora.
Admito que eu era ingênua demais e isso até me colocava em risco algumas vezes, como quando eu tinha 12 anos e quase levei uma moça que conheci na rua para casa para dar roupa de cama para ela. Mas esse meu jeito também fez com que eu conhecesse muitas pessoas diferentes que se sentiram à vontade para compartilhar suas histórias comigo. Para quem escreve, conversar com os outros é essencial. Inclusive, esse foi um dos motivos que me levou a querer estudar jornalismo, essa curiosidade de conhecer histórias diferentes. Esse hábito serve para alimentar a criatividade e aprimorar qualquer tipo de escrita. É algo que me ajuda no meu trabalho como redatora também.
Junto com “escrever é reescrever” e “ignore seu crítico interior na hora de iniciar o primeiro rascunho”, esse é um dos maiores e mais comuns conselhos dados a quem escreve ou quer começar a escrever: para vencer bloqueios ou simplesmente instigar sua criatividade, saia de casa, viva experiências novas, fale com as pessoas. Não importa o quão grande seja sua bagagem ou quão abrangente seja sua vivência, é impossível experimentar tudo. E uma forma muito eficiente de ampliar sua perspectiva sobre o mundo, além de ler diversos tipos de livros, é falar com as pessoas sobre as histórias delas. Na minha opinião, quem diz que escreve apenas com suas experiências pessoais ou está mentindo, ou no mínimo é um escritor medíocre.
Acredito tanto nisso, que no livro que eu escrevi (e ainda não foi publicado), a protagonista é uma escritora que parou de escrever para ela e escreve apenas para o trabalho com muito custo. Por conta de algumas situações que não vou detalhar aqui, ela precisa achar uma motivação para continuar vivendo por pelo menos mais um ano. Ela se volta então para a escrita, que sempre foi um dos principais pilares que a manteve em pé. Como diz Stephen King, no livro Sobre a Escrita, que eu costumo citar com frequência: a vida não é um sistema de apoio para a arte. É o contrário.” Assim, para conseguir voltar a se inspirar, ela resolve criar um projeto pessoal de entrevistar pessoas, tanto conhecidas como desconhecidas.
Tudo isso reforça que três das minhas principais convicções pessoais são:
- A escrita é uma parte muito importante do que me motiva a viver.
- Para continuar escrevendo é necessário conhecer outras pessoas de forma mais profunda.
- A conexão com outras pessoas é essencial para a vida, somos seres sociais e a relação com os outros contribui fortemente para a nossa felicidade e qualidade de vida.
Ou seja, elas estão interligadas e se alimentam.
Acabou que eu aprendi a ser menos ingênua sem deixar de ser extrovertida e me permitir me aproximar das pessoas para conhecê-las melhor. Espero manter esse meu lado sempre vivo.
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